E concluiu numa tentativa de racionalidade que lhe dilacerava por dentro: essas coisas do coração, são assim mesmo. O que se há de fazer?
O tempo é uma das coisas mais escrotas da vida. Depende do espaço, depende do espírito, mas, da mesma forma, tem a independência de um despota que vai matando os sonhos um a um.
Eles falavam horas sobre o amor. Aquele tema era, indiscutivelmente, o preferido deles. Poderiam ver o sol nascer teorizando sobre as formas de amar, suas repercussões, suas angústias. Mas em uma tentativa de trazer alguma concretude usavam os mesmos clichês de propaganda de dia dos namorados do Iguatemi: cumplicidade, segurança. Estavam bem como estavam, mas queriam qualquer coisa a mais, desejavam isso como quem deseja dar a volta ao mundo. Como poderiam buscar a paz em um sentimento que só a afasta? É, paradoxo é mais um clichê…o amor é um clichê que todo mundo quer.
O desejo migra? Migra muito? É um negócio nômade? Negócio escroto, sem consideração.
Aquele sonho deveria significar alguma coisa. Afinal, ficar deitada lado a lado de alguém com quem seu maior contato físico foi com o dedo mindinho numa brincadeira ridícula deveria significar alguma coisa. Pensou, dormiu e acordou lembrando de uma frase pra acalmar o coração: “aquilo que poderia ter sido cresce a cada instante” e “intuiu que estava fodida”, o queria ao seu lado para o resto da vida.